HSERPA

"Para nos iluminarmos não precisamos apagar o brilho dos outros"

Textos

A LÓGICA E A JUSTIÇA NAS DIVERSAS VIDAS TERRENAS

Muito fala-se de vida após a morte, de reencarnações, de efeito de causa e efeito, de carmas, de céu e inferno, de nirvana, de vida após a morte, ou antes, sem nenhuma base lógica e tantas outras coisas mais relacionados à nossa vida, que de tanto falar aqui e ali, e de tantas contradições e até asneiras ditas pelas religiões, a maioria das pessoas já perdeu a busca por estas informações tão importantes para entendermos o que acontece durante o período terreno, pois tudo virou um balaio de gato, onde volta e meia entra mais algum gato.

Para a psiquiatria antes tudo se resumia na infância, ou a traumas sofridos, ou até a vivências no intrauterino para explicar tudo e eu não quero aqui entrar no questionamento de nada nesta área, pois sei que foram úteis em algum período da minha vida também, pelo menos para saber que em algum momento neste caminho não ia encontrar nada, e quando você não sabe o que não está batendo bem no teu íntimo o melhor caminho é o da eliminação.

Este raciocínio é no mesmo caminho de um mecânico que vai consertar o teu carro e não sabe por onde começar, quem já teve um desses problemas fantasmas em um carro sabe do que estou dizendo, na psiquiatria também foi assim durante muito tempo, levei quarenta anos e uma pequena fortuna para saber que era bipolar, mas as coisas evoluiram, tanto é que hoje levo uma vida normal nesta área.

Na psiquiatria ou psicologia dos anos setenta era a mesma coisa, ou pior, o cara te cobrava o olho da tua cara, para depois de um enorme silêncio simplesmente dizer; “Por hoje encerramos, até a próxima seção”, meu, era loucura aquilo, e a minha família não era rica; está certo que falar um pouco acabava te dando alguma esperança, mas, meia hora depois que você sair de lá, já queria que um caminhão caísse de um viaduto bem em cima da tua cabeça.

Mas a vida continua, esta minha experiência ocorreu quando fui servir o exército e não aguentava aquele convívio e rotina massacrante, mas o problema maior era a aglomeração de pessoas, hoje este distúrbio é chamado de Agorafobia, ou fobia social, mas hoje tudo tem um nome, mas o exército, claro, não sabia o que era isso, muito menos os psiquiatras de então, mas só sei que a minha mãe acabou me tirando de lá, depois de muita luta e eu ter ficado uns dois meses numa Ala de doentes mentais, onde a maioria eram pracinhas que lutaram na segunda guerra e outros piradões que nem eu, daqueles anos setenta, onde nos víamos no filme “Um estranho no ninho” com Jack Nicholson, mas que eram chamados de malandros pelos sargentos e tenentes que ficavam me ameaçando que quando eu voltasse do hospital eu ia ver “o que era bom para tosse” de querer se livrar deles.

Tive amigos que levaram eletrochoques só porque usavam maconha, assim como Paulo Coelho, e por isso, apesar de não gostar de alguns livros dele (Diário de Um Mago como exemplo), gostei muito de outros, mas não gosto, principalmente,  da mística que ele cultua em torno de si, que é tudo baboseira, pois estas sociedades que se diziam ou se dizem ser secretas são apenas formadas em cima de egos hoje em dia e se existe algo que seja oculto da vida normal, então é melhor que se mantenha assim, pois a Verdade é clara, a vida é clara, os cantos escuros nós é que criamos, então é melhor não mexer nisso.

Algumas seitas no passado tiveram relevante influência politica como a maçonaria, que hoje procura membros para a seita através de anúncios de jornais  mas de alguns livros de Paulo coelho não posso dizer que não gostei, aliás gostei muito, e até me identifiquei com eles, como a busca frenética por respostas de O Alquimista, Onze minutos, que se dá no meio da prostituição e considero um conto de fadas dos tempos modernos e, Veronika Decide Morrer, também magnifico e original na abordagem, de pirados internados como eu fui, mas que só éramos à frente do nosso tempo, e sem saber do porquê,  mas estes são livros muito bons e indico.


A psiquiatria era tão avançada naquela época que fui para o hospital psiquiátrico do exército duas vezes, na primeira quiseram me devolver, mas a minha mãe voltou à carga e voltei para o hospital para ficar mais uns dois meses, e dali sair sem ter falado nenhuma vez com nenhum psiquiatra, ninguém entendia nada na área tanto é que nem tinha esta especialidade no quadro do exército.

Com o tenente que ficava me ameaçando aconteceu um lance que foi interessante e totalmente sem intenção, eu não tinha e não tenho maldade, mas ele não saiu ileso. Ia ter um marcha especial e todos estavam com o uniforme de gala e eu por estar à paisana, estava fechado no vestuário e sentado numa caixa de engraxar sapato espiando a tropa ali do lado de fora, ainda em formação para o desfile, e depois eu iria embora.

E este tenente entrou e disse: “Bom soldado Serpa, já que estás indo embora dá um último brilho aqui no meu coturno e colocou o pé no lugar apropriado e eu ali sentado, com medo de alguma coisa ainda dar errado no último minuto, peguei o primeiro pano que vi na caixa e comecei a esfregar o coturno do tenente, só que o pano estava sujo e o coturno estava com cadarços branco, pois de gala, e já viu a meleca que deu, mas apesar da babada e escutar que eu não servia para o exército mesmo, acabei atravessando o portão pela última vez.

Dois meses depois estava com um amigo, naqueles tempos de malucos e caretas, e acabei indo preso junto com ele que era chamado Marcos, que depois começamos a chamar de “marcão”, que na época era sinônimo de quem dava vacilo, pois deu uma bobeira de deixar dentro de uma caixa de fósforo uma bagana de maconha, que não dava nem para uma puxada, e fez de nós e mais um outro que estava junto, que era filho de um tenente, por coincidência, virar primeira página de jornal.

“PRESOS COM OS OLHOS ESBUGALHADOS DE TANTA MACONHA”, não tinham melhor assunto provavelmente, e eu que nem gostava daquilo, mas gostava dos amigos, fui “guardado” junto com eles.

Cito isso, pois depois soube pelos meus amigos do exército, que com eles todos formados, os oficiais, com o Jornal na mão, deram uma baita de uma esculachada dizendo que o exército tinha se livrado de um mau elemento da pior categoria, e deixaram no mural o jornal até ficar amarelado para servir de exemplo, quando, coitado de mim, estava pedindo para morrer de tanto chover coco na minha cabeça, e que eles tinham é ficado putos de não poderem mais pôr as mãos em mim.

Mas a psiquiatria evoluiu muito, hoje há nomes para tudo, e eu não posso falar nada, pois muito me ajudou depois, pois eu só estava começando a minha trajetória de estranho no ninho neste mundão.

Esta história começou a ficar longa, mas o que posso dizer é que o psicólogo mais barato que a minha mãe tinha arranjado era um ex-padre, também professor da PUC do Paraná, e muito conhecido, pois era de família tradicional e muito rica de Curitiba, e tinha programas de psicologia e Filosofia em rádios, possivelmente da família.

Mas  quando escutou eu dizer que iria parar com o tratamento, naquela altura era terapia de grupo, pois tinha encontrado uns livros (Mensagem do Graal “Na Luz da Verdade” de Abdruschin) que tinham me dado respostas e que ia me aprofundar nelas, ele não quis abrir mão deste maluco aqui, que incandescia a turma de tanto questionar e falar, e só faltou me dar alguma grana como incentivo, ao invés de receber, pois do pagamento até dispensou, mas para o bem daqueles coitados, que espero que todos tenham ficado bem, eu não fui mais.

No sofrimento de alguém não tem nada de engraçado, mas lembro, antes de ter encontrado os livros de Abdruschin, que saindo um dia de umas destas sessões, entrei em uma igreja que estava vazia, (naquela época ainda não se roubavam igrejas), coisa que desde os meus tenros quatorze anos já não fazia mais e ajoelhei-me e procurei fazer uma prece, a mais profunda possível, mas vi que me faltava força interior, eu só tinha força mental, e que a culpa era só minha por não conseguir a força suficiente para merecer levar uma oração em frente, e sai dali consciente desta incapacidade.

Para a história não ficar sem pé nem cabeça digo que frequentei novamente o consultório de um psiquiatra, desta vez uma psiquiatra, quando já estava no final de um relacionamento de quase dez anos e chorava lá feito um bebe de tanto sofrimento  desconhecido na alma, mas a única coisa que aquela psiquiatra sabia fazer era ficar dando umas cruzadas de perna, enquanto eu chorava feito um doido, mas não tão doido a ponto de não observar quais as intenções daquelas cruzadas, pois tinha desenvolvido sexo meio que compulsivo, antes daquele casamento, (o meu vicio mais díficil de superar) e o casamento foi meio que uma fuga e um esteio por aquele período, mas eu tinha que voltar para a estrada para me resolver completamente.  

Eu ainda estava muito longe para viver dentro dos ensinamentos de Abdruschin que eu considerava e considero inquestionáveis.

Mas para ganhar aquele tipo de pernas eu não precisava pagar tão caro, nunca paguei prostitutas, pois as ganhava de graça, nunca tive pressa e ficava até o final do expediente e iamos comer alguma coisa em grupos e terminar a noite, o que eu queria era companhia, mas fui o protegido de muitas quando jovem, então conhecia bem o meio.

Mas depois de separado, em um coquetel, encontrei uma amigo gerente de uma seguradora tomando guaraná, e ele era um baita de um bebum, perguntei por que, e ele me disse que estava tratando de Síndrome de Pânico e, ainda mais, o diretor dele que também era meu amigo, também estava indo lá no mesmo psiquiatra e quando passou alguns dias e eu apavorado, pois viria um feriadão de carnaval, e eu não sabia se ia aguentar tanto tempo sem falar com ninguém, fui lá e pedi o telefone do profissional.

Fui e o cara era caro, o mais caro de Curitiba, talvez entre os mais caros do Brasil, era de certa idade, tinha sido professor, tinha sido palestrante pelo mundo e já não dava entrevistas para revistas, vi uma vez quando a Veja o procurou.

Eu estava com trinta e oito anos, e em pleno viço profissional, e tinha passado por tudo, então sabia que o cara era bom, haja visto eu e os outros dois conhecidos, figurinhas carimbadas  na cidade, estarem se tratando com ele, e ele não queria saber quem foi meu pai nem a minha mãe, nem tocava no assunto, e já foi falando lances e me pondo para relaxar, ensinando técnicas; era como se a minha alma estivesse em carne viva, quando ele falava palavras para me acalmar eu sentia um alivio, ali deitado naquela maca.

O meu amigo dizia que o pé dele fervia quando ele dizia no relaxamento que o dedão dele estava esquentando, esquentando, mas eu não conseguia me entregar tanto no relaxamento, mas fui melhorando. Assim como não tinha conseguido fazer aquela oração, não conseguia também me entregar no relaxamento, e por isso passei a fazer duas vezes por semana, gastaria tudo que tinha ganho, se fosse preciso. Nesta altura o problema principal era uma depressão profunda.

O mundo continuava sempre me assustando muito e criar vínculos afetivos era a minha fobia.

Um dia depois de um acidente que causei, que fechou o centro de Curitiba; eu tinha batido em um taxi e os taxistas fecharam aquela via importante da cidade, até que tivessem todas as garantias que o amigo deles receberia os prejuízos causados  em um acidente tão insólito,  pois bati na contra mão embaixo de um viaduto de mão única, mas que ninguém se machucou, felizmente, e que virou conversa e risadas de mais de mês na cidade.

Um amigo que estava comigo no carro na hora do acidente tranquilizou todo mundo, de que eu era boa gente, tinha condições e que iria pagar tudo, enquanto eu desmaiado fui levado para um pronto socorro, onde só acordei depois da hora do almoço sem saber o que tinha acontecido, mas sem nenhum machucado; o acidente tinha sido às sete da manhã, e teve TV extraordinária, e também no jornal do almoço, enquanto eu ainda dormia no banco do hospital sem nem ainda ter sido atendido.

Fizeram um exame por insitência minha para eu poder ir embora, tinha só uma luxação no ombro, e me liberaram, tinha um monte de gente atrás de mim, mas como eu dormi no banco do hospital, não tinha prontuário de entrada e ninguém sabia onde eu estava, eu nunca imaginei que tivesse tantos amigos na cidade.

Liguei para minha irmã e perguntei se ela podia ir me buscar, ela foi e dali fui em busca do meu amigo que tinha guardado os meus documentos e algumas coisas pessoais muito mais importantes que eu tinha comigo no carro, e fui para o hotel onde morava. Lá almocei e li o jornal de domingo, onde mais uma vez eu era primeira página, embaixo de uma árvore que tinha numa pracinha em frente do mesmo e ali relaxei.

Passado este momento eu liguei novamente para a minha irmã pedindo se ela poderia me emprestar um  carro que eu iria para a praia com uma paquera que eu tinha brigado no início da noite do acidente,  e onde  alguns amigos iriam alguns dias depois para passarmos o ano novo.

Eu estava tremendamente sensível com tudo o tinha acontecido e sabia que haveriam muitas consequências graves, mas estava tranquilo lá naquela casa sozinho com aquela garota que era tão piradinha e lá, naquele isolamento, eu senti por ela o sentimento que tinha sentido na adolescência por uma mulher que foi levada para longe de mim sem nenhuma despedida, e para sentir novamente aquele sentimento eu tanto tinha corrido atrás, mas nunca mais o tinha sentido, e isto me causava muito sofrimento e sofreguidão, e por isso sabia da importância daquele momento que estava lá passado, e consciente da libertação que eu estava tendo ali, fui para um quarto vazio da casa e prostrado agradeci a Jesus, o Amor de Deus, pela libertação e esclarecimento daquele engano, e esta oração eu sabia que era uma oração como deveriam ser todas as orações

Alguns dias depois eu vi que aquele sentimento, que sempre procurei, e sofri tanto buscando, era apenas uma tola paixão, ridícula até, e que antes daquele final de ano já tinha passado.

E assim vai a vida indo ao seu desfecho terreno, onde vamos encontrando no caminho as pedras que um dia colocamos em outras épocas, em outras vidas, e que agora vamos encontrando no caminho da volta.

Descobri nas minhas andanças que por conceitos religiosos errados que impus ferreamente a outros, em outros tempos, tinha pecado muito contra o amor e reprimido o sexo de forma violenta, ao não permiti-lo ser natural em mim, e que por isso, agora, nesta vida, tinha tanta dificuldade de lidar com eles de forma natural.

E o medo social que oprimia a minha alma era por agora me sentir desprotegido sem o poder que tive naquela época, e que abusei no seu uso contra a coletividade de quem agora tinha pavor, embora possivelmente, na maioria, não fosse a mesma, mas a insegurança minha era feroz.

O sentimento sentido nas encarnações, nesses casos, seria o mesmo de alguém que fez muito mal, ou crimes em Porto Alegre, e passa a viver escondido em Fortaleza; por mais que fique mais a vontade nunca se sentirá 100% seguro e terá sempre a impressão que alguém o está reconhecendo, com a diferença que na nova encarnação os motivos dos sofrimentos, ou dos medos, não são conhecidos
 

Já comentei em outras crônicas algumas das coisas citadas aqui, mas são facetas diferentes da mesma história. Um dia eu fecho todas elas e vou dormir.

www.graal.org.br

 
HAMILTON SERPA
Enviado por HAMILTON SERPA em 22/09/2014
Alterado em 25/12/2018
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