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"Para nos iluminarmos não precisamos apagar o brilho dos outros"

Textos

UM ENCONTRO MARCADO A MUITO TEMPO

Como ele andava!

Andava, andava muito, pois se parasse as pessoas o veriam e poderiam querer conversar com ele e ele já a muito não estava preparado para isso, ou melhor não sabia nem mais como fazer isto, não sabia mais como conversar com alguém de tanto pânico que tinha na alma.

Ele tinha se anulado tanto que já estava imobilizado dentro de sí, mas precisava refazer o caminho contrário que o levou àquele estado, se quisesse ter alguma esperança de sobrevida.

E este contato precisava ser pelas rebarbas da sociedade que é onde as cobranças são mínimas, e as pessoas passam meio que invisíveis, pois cada um ali está voltado para os seus próprios vícios e fraquezas, e dá para se viver com poucos trocados que é o que ele tinha.

Tinha largado o último emprego a muito, pois passar o dia inteiro convivendo lhe era extremamente difícil;  tinha que representar alguém que não era ele, pois já nem mais sabia o que era dele realmente de tudo aquilo que sentia.

Tinha virado um ventríloquo de si mesmo, que misturava a realidade sombria da sua vida com o que ele achava que era ser uma pessoa normal.

Se tinha em conta de não ter valor nenhum e de tanto disfarçar ser uma outra pessoa já tinha perdido o contato consigo mesmo. Vivia uma realidade que não era a sua e não tinha para onde ir e precisava mudar, mas como?

Viu que na noite o inicio seria mais fácil, uma cerveja paga, algumas horas baratas de sinuca ajudava no inicio do convívio, o ir de bar em bar de rodas de samba, mais comuns na época, só para que a atenção de alguém não se voltasse para ele, quando sentia que alguém já estava reparando nele já saia e ia para outro lugar, para depois voltar ali novamente e assim ia noite adentro.

Sempre pedia algo para beber, não pela bebida propriamente, mas esta funcionava como um disfarce para não correr o risco de ser mal visto pelos garçons.

Ir, caminhar, caminhar, nunca parar em lugar nenhum por tempo demais era a sua desdita mais imediata, e quando já não agüentava caminhar, e ficar em pé nos tantos lugares, ia para casa dormir, desmaiar, de preferência quando todos já estivessem dormindo, pois ali também se sentia acuado, também ali não se sentia nem um pouco confortável, pois alguns eram muito agressivos e imprevísiveis, mas pelo menos tinha cama, comida e algum dinheiro para pequenos gastos.

Então andar, andar, este era o seu destino, esse, sabia, era o caminho a ser trilhando para sair do calabouço em que tinha se auto-enfurnado, como se ali, naquele calabouço, fosse se sentir protegido, mantendo um ar acima do bem e do mal,  mas acabou acontecendo o contrário, não tinha como se manter afastado da vida eternamente.

O medo do mundo era muito grande, mas não existia outra opção, era necessário reverter o quadro. Tirar forças de onde a muito já não havia nenhuma.

Sempre foi de ler muito e gostava muito de cinema, mas eram hábitos solitários que não ajudavam muito. Nos livros procurava saber de tudo, mas todo dia era um desafio para se manter vivendo.

Ele precisava dar a volta, reverter o quadro, pois com a falta dos seus pais ele seria jogado porta fora imediatamente, naquela casa não havia compaixão.

Tinha sido prejudicado no seu primeiro relacionamento e também em algumas amizades, por falta de traquejo, que lhe deixaram traumas em sua alma, que veio tão despreparada para esta vida.

A mulher que ele teve amor, ou melhor, julgava ter sido amor, sentimento errático que o desnorteou por muito tempo, manipulava dois donos e sobrou para ele que era o lado mais fraco.

Começou cedo a vivênciar do que as pessoas são capazes e a sua boa estampa era só mais um infortúnio, pois não conseguia se esconder, sempre chamava a atenção por onde ia, então não podia parar, andar, andar.

Até que se iniciou o processo de reversão. Encostou-se àquele pilar do bar cheio de gente, e quanto mais gente era melhor, pois assim melhor passava desapercebido. Ficava ali apavorado por dentro, sabendo que os freqüentadores deveriam estar pensando “este cara mora aqui há tantos anos e nunca falou com ninguém e agora aparece e fica ai encostado”.

Como as pessoas se enganam achando que alguém é presunçoso, não possuindo a mínima idéia que esta faceta é a única defesa que muitos tem.

Fica assistindo aos jogos que correm no bar, dá uma risada de vez em quando, procurando interagir, mas está morrendo de medo, mas ele tem que encarar, mesmo que veja que tem alguém rindo dele ou caçoando tem que disfarçar que não está notando, pois o objetivo é de longo prazo.

Não pode é voltar mais para casa se sentindo inferiorizado como sempre se sentiu, e se punindo muito por não ser diferente.


Vai sempre para o centro da cidade nos finais de semana, pois quanto mais multidão melhor e fica também de barzinho em barzinho onde tem música ao vivo, muito comum na época, mas só o tempo suficiente para não chamar muita atenção, mas tem uma mulher, uma bela e altiva mulata, que parece que estava esperando por ele, pois sozinha em meio a tantas mesas cheias, lhe dá sinal para ele se chegar.

Ela pergunta se ele pode lhe pagar uma caipirinha, o dinheiro dele não daria para uma segunda, e tem que guardar o dinheiro do ônibus madrugueiro também.

Eles tomam a caipirinha juntos e ela diz que agora tem que ir trabalhar (era numa boate de luxo ali perto), mas como era véspera de páscoa ela perguntou se ele não queria ir levar um chocolate no dia seguinte de presente.

Ela deu o endereço e para sorte dele ficava no meio do caminho da sua e também teve a felicidade de receber da sua mãe um ovo de presente. Ele foi premiado, os astros já estavam lhe sorrindo, mas ele tinha muito que caminhar, mas já era o primeiro resultado da sua movimentação para sair do seu sumidouro anímico.

Na tarde de domingo pegou o seu ônibus, logo depois do almoço, e foi procurar o endereço da bela mulher, que devia ter algum fio com ele de épocas passadas.

Parou na dica que ela tinha dado, achou o endereço depois de um pouco procurar, e foi atendido por um casal, cuja mulher dividia a casa com ela, e ele falou que veio falar com a fulana. Eles falaram que ela estava dormindo, mas que ele podia entrar e apontaram onde era o quarto dela.

O casal deve ter achado graça daquele jovem chegando a pé e assustado, assim no meio da tarde de domingo de páscoa, e trazendo um pacote na mão.

Ele entrou no quarto devagarzinho, não queria acordá-la e foi se sentando na cama e aos poucos se deitou ali do lado dela. Ela se mexeu e perguntou quem era e ele disse que estava trazendo o chocolate que tinha prometido e ali naquela penumbra do quarto, ela se achegou a ele e ali ficaram até o anoitecer.

Ela não lhe exigia nada e por isso se tornou a primeira ajuda que ele teve naquela volta a uma vida sem pavor.

Ele tinha dado os primeiros passos para fora do seu calabouço e com isso, a mola mestra da vida, o amor invisivel que tudo abrange, começou a conspirar a favor, mas a escuridão e o mundo lá fora continuavam pavorosamente ameaçadores, ainda.


"A força da boa vontade forma à tua volta um círculo capaz de destruir a ação nociva do mal ou atenuá-la bastante, da mesma forma que a camada de ar protege o globo terrestre". Abdruschin em Na Luz da Verdade - www.graal.org.br


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HAMILTON SERPA
Enviado por HAMILTON SERPA em 30/11/2012
Alterado em 03/12/2012
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